domingo, agosto 07, 2011



Jobim: seus comentários e sua saida

E a saida dele acabou sendo melancólica para a sua importância e sua biografia. Sem necessidade, como diriam alguns, inclusive eu. Ouvi falar de Nélson Jobim no início da década de 90. Foi deputado constituinte e presidiu a Revisão Constitucional anos depois. Um colega meu que fora à Brasília no interesse da categoria posou em uma foto com ele, publicada em nosso informativo. Antes, o único Jobim de quem eu ouvira falar era o músico e compositor de “Desafinado”, parceiro de Vinicius. Voltando ao Jobim político, este foi nomeado ministro da Justiça no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso. E do Ministério da Justiça onde ficou pouco mais de dois anos, alçou ao Supremo Tribunal Federal (STF), indicado e nomeado por seu padrinho FHC. No Brasil infelizmente é assim, o presidente da República indica, o Congresso Nacional faz de conta que sabatina, e depois o mesmo presidente nomeia para o cargo vitalício de ministro. No STF Jobim chegou a presidir a maior corte do País, de onde saiu, sem completar seu mandato de dois anos, ainda com 60 anos incompletos (a maioria vai até os 70 anos, saindo pela “expulsória”, como apelidam a aposentadoria compulsória), sob especulação de compor como vice-presidente a chapa da reeleição de Lula, o que não ocorreu, vindo a ser nomeado ministro da Defesa no segundo governo deste, prosseguindo a frente do mesmo ministério até a última quinta-feira, 4 de agosto. Poucos, ou talvez só Jobim, sabem o real motivo de ele ter forçado sua saída. Falava o que lhe vinha na telha, sem se incomodar com a repercussão, incomodando a atual inquilina do Palácio da Alvorada. Vejo nas suas declarações e no consequente resultado a predominância da vaidade. Ah, a vaidade! “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, como disse o sábio rei, já na pele de pregador. A gota d’água teria sido a declaração de que votara em José Serra e não em Dilma! Aqui pra nós, isso acrescentava alguma coisa? Não influía e nem contribuía. Ora Jobim – poderia ter dito Dilma – tu não votaste em mim, mas agora tu és meu auxiliar e pronto! Jobim, eu prefiro contar contigo que não votaste em mim, do que outros que dizem ter votado! Jobim, tu não votaste em mim, e eu com isso(?), não precisei do teu voto para me eleger eh eh. E vai trabalhando na Defesa cara, até pedires pra sair ou quando eu quiser te exonerar. Tenho dito! E Jobim, para ser cavalheiro, gentil, aumentar sua credibilidade teria um rol de manifestações. Presidenta – diria ele – eu não votei na senhora, mas agora eu voto eh eh. Não votei na senhora, mas lhe sou fiel, não vou lhe decepcionar. Na minha pasta (Ministério da Defesa) não tem bandalheira. Presidenta, a senhora não iria querer que eu mentisse, dizendo que tinha votado na senhora só pra lhe agradar. Se assim fosse eu estaria mentindo. E também teria traído meu amigo Serra que eu tinha como vencedor. Eu sou assim, e pronto. E a senhora pode contar comigo, mesmo que eu não tenha votado na senhora. Bem, a situação poderia ter esse contorno, de forma mais erudita, mais formal ou mais íntima. Mas tudo terminou como todos já sabem. Jobim saiu, como se diz coloquialmente, chutado. Por mim, eu prefiro um vizinho que me deteste, mas que não me incomode. Enquanto servidor público da ativa, com outros servidores sob minha chefia, minha preferência era por quem fosse criativo, dinâmico, eficiente e honesto, mesmo que não fosse meu amigo e nem simpatizasse comigo, haja vista que maior que o interesse do chefe está o interesse público. Mas, a maioria de chefes, sejam eles pequenos, médios ou grandes, absorve para si indevidamente todo o interesse, como se a res publica fosse propriedade sua, e ad eternum! Jobim chegou ao ápice do Poder Judiciário sem disputar com ninguém, sem submeter-se a voto algum, sem a prova inconteste do mérito, apesar de seu vasto currículo. Valeu-se de um padrinho que estava no topo do poder mais influente, o Executivo. Seu mérito foi o chamado QI (quem indica), se rasgando em elogios de gratidão na festa de aniversário de 80 anos do padrinho. Quem chega a presidir um dos Três Poderes, conforme disse um diplomata, nunca deveria aceitar um cargo demissível ad nutum, por qualquer ou sem motivo algum e a qualquer tempo, passando a impressão que o Executivo é superior hierarquicamente ao Judiciário. Ao deixar o cargo deveria ir para casa e no máximo dar pareceres e conferências pelo conhecimento obtido nos numerosos julgamentos dos quais participou em última e decisiva instância, e não voltar a servir de auxiliar (e nem me falem em humildade, por favor!) de ninguém. Talvez a minha singeleza de índio, de homem sem grandes vaidades, sem grandes ambições, veja que deva ser assim, terminar a carreira por cima, saindo pela porta da frente. Mas a vida da maioria dos políticos profissionais funciona assim, diametralmente diferente da lógica de um cidadão comum. O amanhã deles é sempre surpreendente, diferente dos demais mortais.




sábado, agosto 06, 2011






Navegante de pequeno curso



Houve um atuante navegador de médio curso, que não via em sua imensa prole quem pudesse herdar sua arte para levar adiante a atividade que lhe dera até certa relevância. Seu filho mais velho trabalhara no cais como estivador, mas acabara despedido desonrosamente. E, sem condições de encontrar outro emprego em face de suas reduzidas aptidões, passou a acompanhar o pai em suas rotineiras viagens, prestando-lhe assistência em pequenas tarefas, servindo-lhe cafezinho e acendendo seu cachimbo enquanto o navegador estava no timão. E em terra carregava seu saco de viagem.

Depois o pai, pelo conhecimento que possuía, conseguiu às duras penas empregar o rebento-problema no armazém portuário, onde ancorava seu barco.

Usando do prestígio do velho, aquele filho mesmo sendo medíocre, obteve, sabe lá como, uma credencial náutica para viagens de longo curso, inclusive para viagens intercontinentais. O pai soube, e com um meneio de cabeça riu conformado e indulgente. Mesmo com uma sombra de amargura seu coração paternal chegou a leva-lo sonhar grande a seu desastrado filho, esperando que pudesse superar-se.

Um dia, sem deixar aviso, o velho navegante partiu para sua última viagem, deixando seu grande barco ancorado.

O primogênito então chamou para si aquele espólio. Iria dar continuidade ao que seu pai fora, repetindo suas viagens e ir mais adiante, singrando mares nunca dantes navegados pelo velho. E bem que tentou, mas não conseguiu ir muito além, ficando encalhado em bancos de areia, causando transtornos e prejuízos aos passageiros e donos de carga que não mais o procuraram.

Tentando mostrar que poderia desempenhar a arte do pai, o pretenso navegante ainda tentou conduzir outras embarcações menores, exibindo aos passageiros suas credenciais internacionais, provocando risos e caretas pelas costas, pois era estranho que alguém detentor daquelas credenciais acabasse ao leme de pequenas e insignificantes embarcações.

Alguns, em consideração ao velho pai, ainda tentaram investir no herdeiro do barco, mas os resultados foram frustrantes.

A herança acabou soçobrando diante das procelas e do tempo.

E o suposto navegante, insistindo naquilo para o qual não nasceu e nem conseguiu se moldar, sem nenhuma aptidão, ao oferecer seus serviços, não obteve receptividade, mesmo sem ônus, obrigando-se a ficar com seu já reduzido, inseguro e ridículo barco ancorado em um píer abandonado, de onde vez ou outra ele dá algumas voltinhas. Mas ninguém o acompanha ou lhe serve de passageiro, apesar das credenciais náuticas que ele presunçosamente ostenta, a não ser, vez ou outra, um lunático que vagueia pelo cais.


Refletindo com Rubem Alves O ntem recebi com alegria a informação que uma pessoa amiga disse a outra estar sentindo falta de meus esc...