sábado, dezembro 29, 2012




E lá se foi Bradbury
 
 

Conheci o magistral Ray Bradbury lá pelo final dos anos 70 ou início da década de 80, ao ler “O Homem Ilustrado”, lançado em formato de bolso nas bancas de revistas e que teve sua versão cinematográfica.  Comecei a ler e fiquei deslumbrado a partir do prólogo, parando nos intervalos da faina e outras atividades necessárias até concluir a leitura em pouco mais de três dias, após reler algumas das histórias, envolvido por um estilo espetacular. As centenas de contos que eu lera antes não se comparavam aqueles, cada qual mais diferente. Um dos numerosos exemplos da criatividade do autor na arte de escrever é “Fahrenheit 451”, uma história, que também teve sua versão cinematográfica, sobre um país onde os livros foram proibidos e os que eram encontrados eram queimados. As criações literárias do velho Brad quase sempre se passam no futuro e em outros planetas. E há também algumas com seus personagens voltando ou fugindo ao passado. São como as parábolas, descrevendo traços da alma e do comportamento humano. E “O Homem Ilustrado” traz em seu prólogo um homem que teve seu corpo totalmente tatuado por uma estranha mulher que sumiu após o serviço deixando gravado um turbilhão de astronaves, fontes, gentes, rios, montanhas, estrelas, planetas, dispersos numa galáxia que lhe descia pelo peito, predizendo o futuro e que se moviam à noite, ganhando vida própria. E o narrador, um viajante que se encontra com o homem ilustrado, mais tarde, quando descansavam à noite em uma área de camping, experimenta a sensação de ver tal magia. E cada conto do livro corresponde a uma figura do tatuado, cada qual sem conexão com os demais, num final surpreendente. Até então eu já lera vários contistas e romancistas, entre os quais, os patrícios Jorge Amado, Machado de Assis, José de Alencar, Érico Veríssimo, Humberto de Campos, os estrangeiros Herman Hesse, Sartre, Hemingway, Victor Hugo, Exupery, Alexandre Dumas (pai e filho), Voltaire, Irmãos Grimm, Hans Andersen, as fábulas de Esopo, Mark Twain, Sidney Sheldon, Frederick Forsyth, mas nada parecido com o que escreveu o americano Bradbury. Depois li outras obras suas: “O país de outubro”, “Os frutos dourados do sol”, “As máquinas do prazer” (nenhuma conotação lasciva), “Crônicas marcianas”. Não possuo mais o primeiro exemplar adquirido que tomou outro rumo (de outras mãos) levando-me a adquirir outro e mais outros, a medida que saíram de meu domínio. O que tenho atualmente é uma edição lisboeta  e deve ser o quarto ou quinto exemplar adquirido, além de alguns dos títulos citados. Minhas irmãs também leram, releram e se deliciaram com os contos do mestre Bradbury que se foi para sempre no dia 5 deste mês de junho*, quando estava em Los Angeles.

(*)Texto escrito em 13/6/2012.

 

segunda-feira, dezembro 17, 2012

 

 
Um maravilhoso e inesquecível conto
 
Uma das histórias que ouvi e ainda ouço de mamãe, atualmente com 87 anos, é o conto "A corda de areia", no rol de outras centenas de histórias, entre romances, contos, filmes e casos verídicos, alguns destes ouvidos de pais e avós. Algumas são inesquecíveis e marcantes pela importância como lições de vida, trato ao próximo e outros aspectos humanos. E "A corda de areia" sempre foi uma de minhas preferidas, mas mamãe não lembrava o autor. Com o surgimento da internet cheguei a pesquisar sua autoria, mas não tive êxito. Dia destes conversando em casa com minha irmã Rúbia veio à tona a tal história. Ela com mais habilidade na busca tecnológica encontrou o nome do autor: Malba Tahan. Este é o principal heterônimo do brasileiro Júlio César de Mello e Souza (1895-1974), professor de Matemática, autor de vários livros com dezenas contos protagonizados por gente do mundo árabe. A referida história se passa em um país onde os velhos foram exterminados pelos jovens que passaram a governá-lo. Tudo ia muito bem até que um dia chegou ali uma comitiva de um país vizinho reivindicando uma extensa e cobiçada faixa territorial de solo fértil margeando um rio. Os visitantes trouxeram um tratado assinado fazia décadas entre os governantes dos dois países, deixando os então dirigentes jovens atônitos sem saber o que fazer e o que dizer. Como constatar a veracidade daquele documento? Como reverter a situação? A solução seria apresentada no dia seguinte pelo jovem Ministro do Exterior após este consultar seu pai, o único velho que sobrevivera à matança e passara aqueles últimos anos escondido pelo filho em um subterrâneo. Se quiser saber o que aconteceu leia o texto original abaixo, cujo autor inspirou um outro brasileiro décadas depois que ficou rico escrevendo sob a influência do mestre.
  


A Corda de Areia
Malba Tahan
                                                                                                                                                                                                       
 
- A velhice entrava o progresso! - proclamavam os mais exaltados. - Esse belo país entregue aos moços será mil vezes mais forte, mil vezes mais feliz e glorioso!
O espírito surdo de revolta foi-se apoderando dos jovens. Que lástima (diziam) esse governo decrépito de anciãos! Que lástima!
Não se sabe como, mas a inominável desgraça ocorreu. Precipitaram-se os acontecimentos. Por todos os recantos surgiam fanáticos e conspiradores.
- Eliminemos os velhos! Acabemos com essa senilidade inútil!
É triste relatar. Que nódoa para o mundo, que ignomínia para a História! A mocidade de Kid-Elin, presa de terrível e hedionda alucinação, exterminou todos os velhos.
Todos, não. Houve um que se salvou da hecatombe. Vivia em Kid-Elin um rapaz chamado Zarmã que tinha por seu pai (homem bastante idoso) uma grande, nobre e sincera afeição. E no dia da execrável revolta escondeu o velho no fundo de um subterrâneo, livrando-o assim de cair em poder dos revoltosos homicidas. Para Zarmã a vida de seu pai era um segredo que ele não ousava revelar a ninguém.
Voltemos, porém, à nossa narrativa. Exterminados os velhos, o país de Kid-Elin passou a ser governado unicamente pelos moços, alegres e inexperientes. Para o cargo de Presidente da República elegeram um jovem de vinte e dois anos; o ministro mais amadurecido pela idade não completara dezoito anos; vários generais eram, apenas, adolescentes; o Supremo Tribunal foi entregue a um mancebo de vinte anos incompletos: da direção do Banco Nacional encarregou-se um novato, que precisamente no dia da posse festejava sua décima quinta primavera!
Os juvenis governantes de Kid-Elin proclamaram com alvoroço a vitória:
- Eis o único país do mundo que não tem velhos! Aqui é a mocidade que governa, resolve e desresolve!
Certas notícias correm pela terra com a rapidez do relâmpago pelo ar. No fim de poucas semanas recebia o mundo a informação do movimento de Kid-Elin.
- Kid-Elin é o país dos jovens! Vamos todos para Kid-Elin.
E as estradas encheram-se de turistas e curiosos que iam em busca da nova República.
Para empanar a esfuziante alegria dos jovens senhores de Kid-Elin verificou-se um fato profundamente inquietante e desagradável. De Beluã (reino vizinho) foi enviada aparatosa embaixada constituída de técnicos, jurisconsultos e economistas. Essa embaixada, ao chegar, procurou o jovem Presidente da República e fê-lo ciente de
sua espinhosa e delicada missão. Tratava-se apenas do seguinte: O reino de Beluã, por seus legítimos representantes, exigia dos moços a devolução imediata de todas as terras que se estendiam para além do rio Helvo.
E o chefe da embaixada exprimiu-se em termos bem claros, sem poesia e sem retórica:
- O governo beluanita, firmado em seus direitos, exige a entrega imediata do território em litígio. - Temos um tratado, nesse sentido, com Kid-Elin. Aqui estão os documentos.
O Presidente, os Ministros e Magistrados de Kid-Elin examinaram os títulos e as escrituras. Tudo parecia claro, líquido, insofismável. A República de Kid-Elin era obrigada a entregar ao seu poderoso vizinho (em virtude de um acordo feito vinte anos antes), léguas e léguas de uma terra dadivosa e rica!
Que fazer? Seria a ruína para o país. Seria a desgraça para os jovens!
Foi então que o jovem Zarmã (que era o Ministro do Exterior) teve uma inspiração. Lembrou-se de seu velho pai.
- Vou consultá-lo sobre esse caso - pensou. - Meu Pai, com a experiência que tem da vida, saberá descobrir uma solução para essa questão das terras do Rio Helvo.
- Mais tarde, meu filho - afiançou o velho encolhendo os ombros - mais tarde entrarás também na posse desse grave e precioso segredo. Por ora é cedo. Segue o meu conselho, e tudo estará resolvido para o bem de nossos patrícios!
Cega era a confiança que o diligente Zarmã depositava em seu Pai. No dia seguinte recebeu a embaixada reclamante, e na presença do Presidente, Ministros, Magistrados, Generais e altos-funcionários (eram todos muito jovens) repetiu fielmente as palavras que ouvira do ancião:
- A República de Kid-Elin está resolvida a devolver o território por vós reivindicado. Exige, porém, que o Reino de Beluã cumpra na íntegra os seus compromissos e devolva intacta a corda de areia!
Ao ouvirem tal sentença mostraram-se alarmadíssimos os embaixadores beluanitas. Aquela exigência final, expressa pela exigência da devolução da "corda de areia" caiu como uma bomba no meio deles. O chefe da embaixada ficou pálido e trêmulo. E depois de trocar algumas palavras, em voz baixa, com seus conselheiros e ajudantes, assim falou de rompante, com nervosa decisão:
- Desistimos de nosso pedido. Podeis conservar, para sempre, o território do Helvo, com todos os seus campos e searas.
Neste ponto fez o estrangeiro uma pausa, e logo ajuntou com voz estorcegada, cortante de ironia e rancor, sacudindo o busto com dureza:
- Cabe-me, entretanto, desmentir as notícias propaladas pelos vossos agentes e emissários. Posso jurar que a República dos jovens não existe. Tudo mentira! Há velhos, ainda, neste país!
Mas, afinal, que significa isso: - Corda de areia?
Eis o segredo que o Tempo (e só o Tempo) se encarregará de revelar aos jovens. A velhice é um tesouro. Tesouro de sabedoria, clarividência e discrição. Sem o amparo seguro da velhice, a parcela jovem da humanidade estaria perdida e extraviada, pelos descaminhos da vida. É a velhice que sabe onde encontrar essa maravilhosa corda de areia que liga o Passado ao Presente e enlaça o Presente com o Futuro.
E o bondoso e paciente rabi Haggai repetia quarenta vezes falando aos discípulos atentos:
- Lembrai-vos, meus jovens amigos, lembrai-vos sempre da  "corda de areia".                                           
 
  

 
 


domingo, dezembro 16, 2012


As providenciais formigas


Parada de ônibus  situada na avenida Almirante Barroso próximo a avenida
Ceará. Em primeiro plano o espaço que tomou parte das faixas de trânsito para 
as obras do futuro BRT. Ao fundo o muro do Terminal Rodoviário
 
Podem umas poucas formigas salvar uma vida humana? Parece absurdo, mas é plenamente possível. Há muito não reclamo dos reveses da vida. Não porque seja conformista inato ou porque me obriguei ou sou obrigado a isto por imposição de alguém. Não. Além da confiança em DEUS, na sua infinita misericórdia, bondade, poder e tudo mais, minha conformação com os desapontamentos, com as desilusões, com os prejuízos de ordem material ou moral, com as decepções, se fortaleceram em fatos passados durante o curso da minha vida. Venho vivenciando e aprendendo lições. Algumas inesquecíveis ocorridas da infância à juventude e desta aos dias atuais. Uma delas eu lembro até a data. Foi há mais de 40 anos, na noite de 31 de dezembro de 1971. Na expectativa daquele réveillon, no início da noite aprontei-me para sair. Morava com meus pais num já antigo edifício situado no bairro de São Brás, no início da atual avenida Governador José Malcher e, por volta das 19 horas, após atravessar a movimentadíssima avenida Almirante Barroso cheguei ao ponto de ônibus localizado próximo a confluência com a avenida Ceará, onde havia um grande relógio no alto de uma coluna. Naquele local era e ainda é grande o fluxo de passageiros de ônibus das mais variadas linhas que fazem parada numa extensão de mais de 50 metros. Eu chegara ali com destino ao bairro da Marambaia onde incialmente moramos quando viemos do interior e se concentrava a maioria de meus colegas e amigos. Havia poucos minutos que eu estava naquela parada de ônibus, em pé no passeio público, quando senti literalmente um formigamento em um dos tornozelos, constatando em seguida que eu ficara próximo a uma passagem de formigas, tendo algumas delas subido pelos meus sapatos. Meu impulso foi sair de onde estava batendo forte com os pés no solo para livrar-me dos insetos que estivessem nas pernas da calça e nos sapatos, enquanto eu batia com as mãos espalmadas sobre os tornozelos. E, concomitantemente, desloquei-me lateralmente para a esquerda. E nesse deslocamento afastei-me aproximadamente vinte metros de onde inicialmente me postara. E não havia ainda passado nem meio minuto quando vi uma Kombi que trafegava no sentido do bairro do Marco chocar-se lateralmente com outro veículo mais pesado trafegando no mesmo sentido. O impacto fez a Kombi descontrolar, capotando espetacular e lateralmente, passando exatamente no ponto onde eu estivera segundos antes, indo parar junto ao muro de um terreno. Tomei um susto e respirei aliviado sussurrando um rápido agradecimento ao Altíssimo pelo livramento que acabara de ser presenteado naquele fim de ano, pois, era evidente que se eu ainda estivesse no local onde fora atacado pelas formigas, fatalmente eu teria sucumbido, provavelmente esmagado, ao impacto violento de veículo automotor pesando uma tonelada. A seguir, ainda sob o impacto emocional, dirigi-me com outras pessoas que ali estavam, para ver o que acontecera com os ocupantes do veículo capotado, constatando que os dois, incluindo o motorista, saíram ilesos. Mais tarde eu faria as primeiras narrativas do fato, concluindo que se não fossem aquelas providenciais formigas eu não teria saído do lugar onde estivera inicialmente e, consequentemente, seria atingido por uma tonelada de ferro em velocidade. E não estaria contando a história como faço neste texto. Com o passar dos anos até os dias atuais quando eu perco algo, se algo não sai como eu gostaria que fosse ou quando acontece uma coisa desagradável logo eu imagino que aquilo aconteceu ou está acontecendo para evitar um mal maior. E assim tem sido até agora, graças a Ele.
 

domingo, novembro 11, 2012



 
 
 
 
E o dia anoiteceu alviazul

Não foi porque o céu belenense estivesse azul com nuvens brancas. Eram as bandeiras e camisas listradas de azul e branco, empunhadas e vestidas por torcedores do Papão da Curuzu que tomaram a partir das dezoito horas a Doca de Souza Franco, uma das vias tradicionais de concentração da capital paraense, ao final do jogo Macaé (RJ) e Paysandu, comemorando o retorno do clube do coração à série B do Campeonato Brasileiro, depois de insistir por seis temporadas. Égua – como dizem nossos conterrâneos – até que enfim saímos dessa situaçãozinha peba. Oportuno o manjado lítotes “já não era sem tempo”. E reparem a data do ocorrido: 10/11/12. Dá pra esquecer? A situação era tão incômoda que até alguns remistas, nossos tradicionais adversários, estavam torcendo em prol. Aliás, como deve fazer o torcedor equilibrado, pois era o Pará representado por um clube de massa. Já torci várias vezes para eles. Aliás, meu saudoso pai era remista. Mas ele não interferiu em minha escolha. Quando eu tinha oito anos e morávamos no interior, certo dia a quando de uma de suas rotineiras viagens à Belém perguntou-me por qual clube eu torcia que ele iria trazer-me a respectiva camisa. Respondi e enfatizei que era o Paysandu, insistindo que não esquecesse. E ele não esqueceu. Ao seu retorno brindou-me com minha primeira camisa listrada alviazul com o escudo do pé alado. Agradeci entusiasmado. E cinco anos depois, quando já morávamos em Belém vim saber que ele era azulino. Administramos nossas simpatias clubistas numa boa. E houve fases em que torcemos juntos pelo seu glorioso Remo quando estava em evidência. Uma delas, foi no jogo Remo 2 X 0 Operário-MS, em 1978. Com o estádio Mangueirão lotado estivemos na mesma arquibancada torcendo e vibrando juntos nos gols do seu clube do coração. Imagino hoje sua satisfação naquele memorável dia 20/02/78, estar torcendo por seu clube do coração ao lado de seu único filho. Inesquecível! Não sei se essas questões afetivas me fizeram um torcedor transigente, mais coerente, a concluir que Remo e Paysandu são irmãos siameses. Se um acabar, o outro fatalmente não será o mesmo. E é nessa oposição racional que se congregam colegas, amigos e parentes, cuja separação se dá unicamente quando os dois jogam entre si. Meu filho Hermom que é Paysandu desde criancinha, quando garoto e adolescente era alvo das ironias de papai, principalmente naqueles cinco anos do penta (93 a 97). Acabava um jogo entre os dois tradicionais rivais, quando o Remo ganhava, ele telefonava para casa e quando o neto atendia ele perguntava o resultado do jogo como se não estivesse ligado no rádio. E à resposta do neto de que seu time havia perdido meu velho sarcasticamente dizia: “Puxa, já tá na hora do Remo perder, dar uma chance ao Paysandu. A culpa é do teu pai em te impor torcer por esse time. Olha eu não mandei ele torcer pelo Paysandu”. O neto sabia que era gozação, mas, respeitosamente não retrucava. E rindo saia com uma evasiva qualquer. E ele se foi quando seu Remo era penta. Mas, vamos ao memorável jogo de ontem. Foi um espetáculo que ao final reuniu em campo jogadores, comissão técnica e membros da diretoria, inclusive meu mencionado filho que está conselheiro e diretor do seu clube. E quando o vi chorando cheguei a rir e achar inadequado aquele choro. Já ganhamos títulos memoráveis, inclusive quando ele tinha 10 anos estávamos juntos no Mangueirão, do mesmo lado que estivera com papai, e vimos o Papão ganhar o primeiro título de campeão da série B, em 26/05/1991, ganhando de 2 X 0 do Guarani. E ele não chorou. Um ano depois, em 1992, vimos o nosso Papão ganhar do inesquecível time do São Paulo, de Zetti, Cafu, Rai, Palhinha e Muller. E ele não chorou. Esse mesmo time paulista que em dezembro daquele ano aqui perdera de 3 X 0 para o nosso Papão, foi campeão mundial em Tóquio. Minutos antes daquele jogo fui com ele até o corredor do vestiário dos visitantes e à saída dos jogadores ele obteve num caderno seu os autógrafos de Zetti, Raí e Muller, exibindo-os no dia seguinte a seus colegas da escola e da rua. Tantos outros jogos vitoriosos estivemos juntos, como num 2 X 0 contra o Flamengo.  Mas, em nenhum deles meu garoto chorou. Logo entendi que no choro de ontem estava embutido um desabafo pelas constantes e arrasadoras críticas, inclusive minhas, à atual gestão do clube. Era como se um pesado fardo tivesse sido aliviado. Não importava os erros e desacertos anteriores. Agora, naquele momento, ele fazia e faz parte de uma gestão que trouxe o alviazul de seu coração de volta a um lugar mais honroso do futebol brasileiro. E assim, nem só o dia anoiteceu alviazul, mas amanheceu da mesma forma para o deleite da nação do mesmo tom.

quinta-feira, outubro 25, 2012







Quem vende mais caro
 





 

 

Provavelmente milhares, senão milhões de brasileiros que acessam a rede social já receberam em seus correios eletrônicos (e-mails) uma mensagem sugerindo não se comprar combustíveis (abastecer os veículos) nos postos com a bandeira da Petrobrás. Diz o texto que a estatal brasileira por ser a principal fornecedora dos derivados de petróleo deveria vender o produto (gasolina e diesel) mais barato levando as demais, de outras bandeiras (Texaco, Ipiranga, Shell etc.) a vender os derivados de petróleo pelo menos por igual preço, no entanto é a mais cara. E que se ela sofrer um boicote e ficar total ou parcialmente paralisada, em suas vendas, estará inclinada e obrigada, por via de única opção que terá, a reduzir os preços de seus próprios produtos, para recuperar o mercado, levando as demais a seguir o mesmo rumo para não sucumbirem economicamente e perderem suas fatias de mercado. Em princípio não se dá tanta atenção a essas mensagens que vem num imenso rol de outras de pouca ou nenhuma credibilidade e de menor importância ou atração, haja vista que a rede despertou em todos que a acessam seus dotes de informação. Há um ditado antigo de que de médico e louco todos tem um pouco. E hodiernamente, de repórter também. Mas, ao receber mais de uma vez, de diferentes origens a mesma mensagem, somos levado a verificar sua verossimilhança. E não é que existe alguma razão nessa tal mensagem? Ao dar maior atenção a sua insistência passei, durante meus deslocamentos pela cidade e para fora desta nos finais de semana e feriados prolongados, a dar-me o trabalho de observar os painéis (tabelas) de preços dos postos de abastecimento, o que já venho fazendo há alguns meses. E nessa despretensiosa pesquisa constatei que a Petrobrás sempre está com os preços acima das demais concorrentes. Dá pra entender que um produtor apresente um preço maior dos revendedores que obtém os produtos da própria estatal? Que tipo de estratégia é essa que mesmo assim vende tanto ou até mais que as concorrentes, pois os postos BR continuam se expandindo? E a ANP (Agência Nacional de Petróleo) que tem a atribuição de controlar e fiscalizar os preços está aí com cara de paisagem. Como não sou economista não tenho resposta, nem ao menos uma especulação sobre essa forma de comércio atentatório ao bolso do consumidor. Essas afirmações são comprovadas por numerosas fotos que há meses venho tirando no curso dessas verificações. E as imagens que ilustram este texto são as mais recentes, obtidas num espaço de cinco dias, sem que tenha havido mudança no preço dos derivados de petróleo, provando que a Petrobrás oferece seus produtos com preços acima das concorrentes.
 
 

domingo, outubro 07, 2012


Nem todos são gratos
 

A gratidão é uma virtude, uma forma espontânea de agradecimento de poucos seres humanos. É, portanto, um privilégio ser grato, valorizar e reconhecer o favor, a graça, o benefício recebido. Tenho ouvido há anos que a gratidão é como um fardo pesado que muitos se livram dele na primeira esquina. Não sei quem é seu autor, mas guarda relação, pelo menos quanto a ser um fardo, com o pensamento de Caio Tacitus, senador romano, de que os homens prontificam-se mais a retribuir uma ofensa do que um favor, porque a gratidão é um fardo e a vingança um prazer. Até alguns animais, ditos irracionais, dão sinal desse reconhecimento, às vezes pagando com a própria vida. O ato de gratidão, que deveria ser a regra é a exceção. Meu pai, dentro de sua humildade, foi uma das pessoas mais gratas que conheci neste mundo. Se alguém lhe fizesse um favor o tornaria cativo. Minha irmã mais velha costuma lembrar os exemplos de gratidão de meu pai. Um deles, conforme ele contava, se deu logo após o final da Segunda Guerra. Ele dera baixa do Exército e estava desempregado. E num dia que saíra para procurar emprego, caminhando na via pública, viu passar um caminhão de uma empresa de aviação levando em sua carroceria alguns trabalhadores. O carro parou no sinal e ele reconheceu entre os empregados um ex-colega de caserna, tendo então perguntado em voz alta: “ei, tem vaga?”, sondando se havia emprego naquela empresa. O ex-colega, provavelmente para não chamar atenção e não gritar levantou um dos polegares para cima. Naquele mesmo dia meu pai foi até a sede da empresa e, depois de preencher uma ficha, no dia seguinte estava empregado. Como trabalhavam em turnos diferentes meu pai passou o primeiro mês de trabalho sem tornar a ver seu colega benfeitor. E tão logo saiu seu primeiro salário, num sábado de folga, sabendo que aquele estava também de folga foi até sua casa, quando ali lhe entregou um presente e outro para sua mulher. E mais, presentou o casal com uma galinha caipira para ser saboreada no almoço dominical (era comum esse tipo de oferenda naquele tempo). O anfitrião ficou sem entender o motivo daqueles mimos? Meu pai explicou que estava agradecendo a informação pelo gesto do polegar que o levara a procurar a mesma empresa e ser admitido. Existem muitas outras situações de gratidão até hoje relembradas nas conversas de família e passadas aos netos. Quando eu era jovem indignava-me diante da ingratidão das pessoas. Hoje aceito como natural, até quando alguns, além da ingratidão, se voltam de forma infamante ao benfeitor. Vendo alguém indignado com a ingratidão do semelhante eu contemporizo, dizendo que apenas uma décima parte da humanidade é grata. Minha afirmação se baseia no texto bíblico. O livro do evangelho de Lucas traz uma situação que retrata a gratidão e a ingratidão: “E, entrando numa certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quais pararam de longe; E levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós. E ele, vendo-os, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos. E um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz; E caiu aos seus pés, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano. E, respondendo Jesus, disse: Não foram dez os limpos? E onde estão os nove? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?”.  Ora, se para JESUS, o santíssimo filho de DEUS, apenas um de dez leprosos (lepra era uma das piores doenças da antiguidade, incurável) voltou para agradecer, não queiramos nós pecadores que todos sejam gratos a nossos favores e sacrifícios. O que fazemos a alguém quem nos recompensará é DEUS. Disto eu estou certo pois, tenho sido recompensado a cada manhã, com a vida e todas as bênçãos que recebo junto com meus familiares.

 

segunda-feira, setembro 17, 2012






Uma figura desconhecida nas embalagens
 

Pouca gente sabe o que significa a figura acima – um triângulo equilátero (três lados iguais) amarelo com bordas pretas e a letra T maiúscula também preta em seu interior que pode ser encontrada nas embalagens de óleos comestíveis de mais de uma marca à venda em supermercados. Fiz um teste com dezenas de pessoas conhecidas e desconhecidas, principalmente em supermercados nas alas de tais produtos. E mais de 90% não soube dizer o significado do referido símbolo. Alguns tentaram arriscar, mas passaram longe. Trabalhei vários anos em um setor ambiental do Estado, mas só vim tomar conhecimento do tal símbolo quando fiz um curso de pós-graduação em Direito Ambiental e Políticas Públicas, quando foi abordado em uma das disciplinas a batalha judicial travada entre a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e a Monsanto (indústria multinacional de agricultura e biotecnologia), tendo como objeto o uso da soja roundup ready (RR) resistente ao herbicida glifosato que “mata tudo”.  O certo é que essa letra T é a inicial da palavra transgênico. O mesmo triângulo amarelo com bordas pretas e um sinal de exclamação (!) é adotado internacionalmente como sinal de perigo. Isso mesmo: perigo! Serve para alertar ou advertir de algum tipo de perigo, risco ou prenúncio de um mal. Mas, o que é transgênico? Segundo os dicionários pátrios, “diz-se de organismo, animal ou vegetal, que possui em seu genoma um ou mais genes provenientes de outra espécie, inseridos por processo natural ou, mais destacadamente, empregando métodos da engenharia genética”. No Brasil, a história dos transgênicos está envolvida pela já referida batalha no campo jurídico, chegando à Medida Provisória Nº 131/2003 e depois à edição da Lei Nº 10.814, de 15/12/2003. Um dos transgênicos no País é a tal soja RR. Até então não se sabe quais os efeitos (impactos ambientais) futuros de seu uso na agricultura. E assim, os produtos comestíveis, principalmente os óleos de cozinha, são produzidos por essa soja resistente ao glifosato. E como a lei impôs que o consumidor fosse informado ficou definido, através do Decreto Nº 4.680, de 24 de abril de 2003, a regulamentação ao direito à informação quanto aos alimentos e ingredientes alimentares destinados ao consumo humano ou animal que contenham ou sejam produzidos a partir de organismos geneticamente modificados e que na sua comercialização, o consumidor deverá ser informado da natureza transgênica desse produto, devendo constar a informação de produto a respeito. E esse decreto teve sua regulamentação através da Portaria Nº 2658, de 22/12/2003, do Ministro da Justiça, que estabeleceu as dimensões mínimas de inclusão do tal triângulo amarelo, mas, em dimensões quase microscópicas – um triângulo de lados equivalentes a 5mm, ou seja, meio centímetro, o qual, se fosse circundado caberia em uma circunferência equivalente a um botão de camisa masculina. Como pode se ver, é uma figura diminuta que fica praticamente escondida na parte posterior do rótulo e de desconhecimento do consumidor ante a falta de publicidade pelo próprio Governo Federal ante o seu caráter de utilidade pública. Parece que a intenção seja que o tal símbolo passe despercebido do consumidor. E como os produtos de origem transgênica ainda são mais baratos, o consumidor é levado a adquiri-los pelo preço, sem saber e sem ser efetivamente informado pelo produtor ou pelo órgão governamental competente a respeito do produto que irá consumir, já que predomina no Direito Ambiental o princípio da precaução, com a função principal de evitar riscos e danos ao meio ambiente e às pessoas e quanto aos efeitos futuros. Eu não compro tais produtos, mas é provável que já tenha consumido alimentos (em restaurantes e lanchonetes) que os usam, adquiridos pelo seu preço ilusoriamente mais barato que os demais similares.
 

 

 

domingo, agosto 26, 2012



 
 
As escolhas do cara
 

As escolhas de quem já foi até referido pelo presidente americano como “o cara” tem motivado análises profundas, reflexões e manifestações para todos os gostos das quais me arvoro a associar-me. E elas continuarão indefinidamente. A história assinala escolhas esquisitas como a de um imperador romano nomeando seu cavalo senador. Nossos contemporâneos também surpreendem nas escolhas. Na década de oitenta, segundo contou um colega, o titular da secretaria estadual onde ele trabalhava, trocou a chefa de gabinete por um modesto servidor sem importar-se com as críticas e consequências. O então secretário era um grande empresário ainda neófito na política, mas contribuíra sobremaneira para a eleição do governador que o escolhera para dirigir um órgão estratégico. Logo nas primeiras semanas de gestão ele implicou com a senhora que chefiava o gabinete, uma exemplar e experiente servidora que vinha atuando naquele setor há vários anos. Em sua implicância acabou por demiti-la do cargo em comissão. Como aquele secretário ainda não possuía a legião de áulicos que quase todo dirigente de alto escalão possui, ele substituiu a servidora que atuara em diferentes gestões pelo primeiro nome que lhe deu na telha, escolhendo um obscuro servidor já cinquentão, sem formação superior e nem aptidão técnica. Calunga era o apelido do tal servidor que, de motorista do secretário em seus deslocamentos oficiais e extraoficiais surgiu como o novo chefe de gabinete. De como ele se portaria, fazendo engenheiros, técnicos e outros servidores de nível superior a chama-lo de chefe, pois no organograma daquela secretaria o ocupante daquele cargo era a segunda pessoa do secretário, isso é outra história. Mas esse fato serve para ilustrar o que acontece às vezes com alguns dirigentes do poder público, principalmente, presidentes, governadores e demais agentes políticos e seus auxiliares diretos, ministros e secretários, tomando atitudes extravagantes beirando ao desvario, fazendo escolhas estranhas, absurdas, inexplicáveis, sem se importar com os irreparáveis prejuízos que possam resultar da excêntrica escolha. No fim quem paga a conta é o povo. Vejo às vezes alguns órgãos públicos como uma empresa em constante estado falimentar e que só não acaba de vez porque o erário continuará abastecê-los de recursos, funcionem bem ou mal. Essas atitudes resultam de motivos diversos, seja como a autoafirmação de seu autor, excesso de vaidade ou até mesmo incapacidade ou irresponsabilidade com a coisa pública. Se a escolha vai dar certo ou não, se não é do consenso dos circunstantes, se o escolhido não possui aptidão, experiência e outros atributos para desempenhar com êxito determinado cargo isso não conta, o que por certo não aconteceria ou não acontece com uma empresa da iniciativa privada que tem seu desempenho fundado no mérito.  Assim aconteceu e acontece com Lula. Tantos foram os companheiros de partido que já ocuparam e ocupam setores estratégicos da administração pública, incluindo autarquias e empresas públicas. Assim foi nos ministérios, na Petrobras, na Caixa Econômica, no Banco do Brasil, como agora veio à tona e está em exposição com o julgamento do mensalão. A atual presidente quando escolhida candidata surpreendeu analistas políticos, assim como todos que acompanham os bastidores políticos, surpreendeu aliados e integrantes do partido e desagradou aqueles que esperavam serem os escolhidos. Como escolher para concorrer ao mais alto cargo republicano alguém que nunca concorrera sequer para síndico de edifício? Mas, contra tudo e contra todos, “o cara” escolheu uma pessoa que inicialmente começou nas pesquisas com apenas um dígito, considerada um poste ante sua inexpressividade, e que próximo da eleição do primeiro turno já atingira o índice necessário para a disputa do segundo, saindo vencedora. Sua consagração nas urnas certamente quintuplicou a autoconfiança do doutor honoris causa mais badalado do momento. Ele certamente considera-se espécie de Midas (o mitológico rei que em tudo que tocava virava ouro), achando que pode colocar quem quiser para assumir qualquer que seja o setor ou cargo. Agora mesmo ele voltou a surpreender com a indicação e imposição do candidato à prefeitura de São Paulo, jogando-se de corpo e alma em sua campanha, mesmo saindo de um recente tratamento médico. Para tanto fez pacto com um histórico adversário a quem acusou de corrupto e de adjetivos relacionados a sua censurável conduta na vida pública, tudo para obter seu apoio ao mais novo ungido que por enquanto está muito aquém dos que lideram as pesquisas de intenções de voto. Mas, se as coisas ocorrerem como ele aspira, seu toque magistral irá mais longe ainda para escolher no futuro quem quer que seja para qualquer que seja o cargo republicano. Não interessa o desempenho do escolhido, apenas que será quem ele quiser. E seja qual for o resultado dessa empreitada virão lições inolvidáveis.

 

domingo, agosto 12, 2012




A lição russa

Existe um mote de que “o jogo só acaba quando termina”. Apesar de expressão pleonástica guarda intensa profundidade. A lição russa de hoje tem tudo a ver com isso. Falo dos integrantes da equipe masculina de voleibol da Rússia que ganhou o jogo da tarde londrina de hoje disputado com nossos patrícios, obtendo a medalha olímpica de ouro. Para quem não conhece as regras dessa modalidade de esporte, o voleibol atualmente é disputado em melhor de cinco (5) sets de 25 pontos. A equipe brasileira havia ganhado os dois primeiros sets de 25X19 e 25X20. E o terceiro set ao ser disputado chegou a estar 22 pontos para os canarinhos do vôlei. Assim, faltavam apenas três (3) pontos! Três míseros pontinhos faltavam para encerrar a partida e a equipe comemorar a conquista, subir ao lugar mais alto do pódio e receber a medalha de ouro. “Tá na mão”, muitos pensaram ou disseram, inclusive eu. Em dois ou três minutos era só comemorar mais uma medalha dourada. Era quase impossível reverter o quadro, pois a equipe brasileira passara essa confiança. Quem naquele momento saiu da frente do televisor ou fechou o aparelho, ou saiu de casa, ou se desligou da partida, não tinha quase nenhuma dúvida da indiscutível vitória. E foi aí que funcionou a filosofia popular de que “o jogo só acaba quando termina”. Os russos que perdiam de 22X19, conseguiram reverter o placar, ganhando o terceiro set de 29X27. E jogo foi para o quarto set que se equipe brasileira vencesse, ganharia o jogo. Mas, perderam de novo, 25X22! E assim, veio o quinto e último set, chamado de tie-break (desempate), no qual o placar vai até 15 pontos. E os russos ganharam de 15X9! Se fosse numa olimpíada quando a Rússia ainda pertencia a extinta URSS, diriam que os rapazes se esforçaram, fizeram das tripas coração, deram o sangue, para não serem deportados à Sibéria ou receber outro castigo terrível quando retornassem para casa. Mas isso já não existe mais. Eles lutaram porque queriam vencer. Desculpas, teorias, argumentos, serão apresentados para explicar a derrota brasileira, inclusive a de que o técnico convocara e manteve como titular um filho seu. Alguns dirão que se a situação fosse inversa, nossos patrícios teriam sido acometidos de desânimo, conformismo, admitido antecipadamente a derrota, aceitado a situação e levado o jogo até completar o escore exigido. Ninguém nunca saberá. Mas, o comportamento dos russos, que fizeram a diferença, fica como lição para ser absorvida, mostrando que seja qual for a situação o atleta não pode nunca perder a confiança. Em situação nenhuma ele deve perder a esperança, seja qual for o placar, ele não pode abrir mão da garra de lutar para ganhar, de reverter a situação, de dar tudo de si, de buscar lá no fundo da alma o estímulo e a energia para superar qualquer que seja a dificuldade que se apresentar, mesmo parecendo impossível aos olhos dos demais mortais. O jogo acaba, mesmo sem ter findado, quando terminam esses ingredientes que mantém viva a chama da luta pela vitória.

quarta-feira, agosto 01, 2012



Mensalão: um cometa na nebulosa processual


Amanhã começa, segundo alguns, o maior julgamento da história do Supremo Tribunal Federal (STF). A expectativa é enorme, mas as distorções, incongruências, controvérsias, que envolvem acusados, defensores e julgadores, serão os maiores obstáculos para seu deslinde. Um dos ministros julgadores é amigo e já foi advogado de um dos acusados. O ministro-presidente já foi filiado ao partido (PT) da maioria dos envolvidos, inclusive candidato a deputado federal em 1990. Vários advogados, profissionais de larga experiência, integrantes de bancas de advocacia famosas, entre os quais, um ex-ministro da Justiça, já anunciam que irão pedir a suspensão do julgamento, arguindo em defesa de seus clientes que a Corte Constitucional é adequada apenas para aqueles que possuem foro privilegiado, no caso, os deputados federais em pleno mandato. Isso me lembra um fato marcado por incomensurável expectativa, já fazendo décadas. Em março de 1973 e eu ainda com 21 anos, jornais e revistas anunciaram aquilo que tinha tudo para ser o acontecimento astronômico do ano, da década, do século, quem sabe do milênio. O astrônomo tcheco Lubos Kohouteck descobrira um cometa, registrado como C/1973 E1, que passou a ser chamado pelo nome de seu descobridor, assim como o cometa Halley descoberto por Edmond Halley em 1696, aquele que aparece de 76 anos em 76 anos.  O cometa de 1973 também era periódico, cujo periélio (maior proximidade ao sol, quando a exposição do cometa é mais intensa) se daria na véspera do Natal daquele ano. Alguns artigos sustentavam que o tal cometa tivera uma de suas passagens por nosso planeta a quando do nascimento de Jesus e que a Estrela de Davi, a que levou os Três Reis Magos a segui-la para chegarem até a manjedoura onde estava o menino-Deus, na realidade seria o cometa agora batizado de Kohoutek. Selos comemorativos e variados brindes (chaveiros, canecas, bandejas etc) foram confeccionados para marcar a passagem de tão esperado corpo celeste a se transformar num espetáculo inesquecível, segundo os astrônomos. Muita gente se preparou para vê-lo do mar, outros viajaram para lugares onde a visibilidade seria melhor. Mas todo esse aparato e preparo acabou num fiasco, pois tudo aquilo que fora anunciado pelo astrônomo tcheco não aconteceu. Os seus vários quilômetros da cauda, sua luminosidade, seu brilho, não alcançaram o que fora anunciado, devido, segundo explicações científicas, ao seu núcleo não ser muito rico em substâncias voláteis.  Mas, o que teria aquele anunciado cometa com o julgamento do mensalão a ocorrer a partir de amanhã pela maior corte de justiça do nosso país? Ah, sim, preciso dizer que uma das definições de cometa é que se trata de “sujeira” ou “pedras de gelo sujo” formado principalmente por material volátil que passa diretamente do estado sólido para o estado gasoso e que a tal “sujeira” é constituída principalmente por poeira e pedras de tamanhos mais variados. E então, no inicio deste ano de 2012 foi anunciado o julgamento de quase 40 acusados, entre as quais, deputados federais, ex-deputados federais, ex-ministros, assessores, bancários, um grande publicitário, envolvidos em um negócio sujo que foi rotulado de “mensalão” que era o pagamento mensal a políticos (deputados) da base de sustentação do governo federal para manipulação de votos na aprovação de projetos e manutenção da direção do País nas mãos de quem o detinha e detém. O julgamento iniciará amanhã, dia 02 de agosto e, segundo afirmou o presidente do STF, terminará ainda mesmo em agosto. A expectativa é grande quanto ao destino dos “mensaleiros” e articuladores da obtenção e distribuição do dinheiro, quase sempre surrupiado dos cofres públicos. Eu particularmente não acredito nessa previsão, pois existem dezenas de motivos a obstaculizar seu curso. São quase 40 acusados de crimes de formação de bando ou quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, peculato, gestão fraudulenta e evasão de divisas, um dos quais, ex-ministro da Casa Civil e ex-deputado federal, detentor de vários mandatos e que figura na história de resistência através da guerrilha ao regime de exceção, amigo da presidenta da República e seu ex-companheiro da luta armada e amigo do último ex-presidente da República, de quem foi seu ministro ocupando a Casa Civil. São dezenas de volumes de autos processuais, apresentando extensas e prolixas defesas (alegações finais), como é o caso das alegações de defesa daquele que é rotulado de “chefe da quadrilha”, composta de 162 folhas, cujo advogado alega estar a “frente de gigantesco universo processual”, a de outro, com 115 folhas; a do tesoureiro, com 135. E por aí vai. O julgamento do “mensalão” tende a se tornar um fiasco como foi a passagem do Kohoutek em 1973 aqui na Terra. De sua grandeza processual, os defensores dos réus e outros atores que não aparecem, de tudo farão para que a “sujeira” imputada aos acusados não venha à tona, impedindo que, como na luminosidade do cometa, o julgamento tenha uma passagem opaca, sem brilho, frustrante para todos nós.

sábado, junho 23, 2012


A ética por 1m35s


Lula, Haddad e Maluf se cumprimentam após selarem o acordo entre PT e PP em São Paulo
Foto: Léo Pinheiro/Terra


Quando menino ouvi uma conversa de adultos tendo alguém argumentado que todo homem tem preço, todo homem se vende. Esse argumento se dava diante de um fato trazido à baila naquela oportunidade de que um eleitor da cidade interiorana em que eu nasci e morava teria recebido uma quantia ínfima para vender seu voto. Seus críticos diziam que o tal eleitor ao incorrer em desonra nem ao menos se valorizara vendendo seu voto correspondente a uma galinha. E quem falou sobre o preço da honra alegou ter lido um artigo do jornalista David Nasser que na política partidária todo homem tinha um preço, se não se vendesse por 100 cruzeiros (moeda circulante à época), se vendia por 1000, por um milhão ou fosse qual fosse o preço, mas se vendia! Sempre lembro aquela conversa mas não sei se a referência ao jornalista que era estrela da revista de maior tiragem de então, ligado ao poder, era verdadeira ou apenas argumento de ocasião, mas parece admissível diante da controvertida biografia de seu alegado autor.  O tempo passou e vi que sendo ou não de Nasser aquela concepção ela é plausível, pois é fato, principalmente em nosso país, políticos inimigos figadais de ontem tornarem-se “amigos desde criancinhas”, tudo pela conveniência, tudo pela ambição ao poder. Nos últimos trinta anos, após o processo de abertura e anistia política no país, a volta do pluripartidarismo e das eleições diretas, ocorreram e ocorrem as mais absurdas e espúrias parcerias. O ator mais célebre dessas coligações (como se usava antigamente) é aquele que “nunca antes na história desse país” já fez tanto de tudo, de quem se pode esperar as mais estapafúrdias e asquerosas alianças (como se diz atualmente), a começar com a que foi feita para sua eleição ao maior cargo da nação quando se aliou a alguém de biografia rotulada de “memória das trevas” e que servira aos militares no poder com quem que romperia logo após ter atingido seu objetivo. Agora, no início desta semana, o destacado líder voltou aos seus negócios com um de seus mais históricos desafetos, alguém de quem há doze anos declarou que deveria estar atrás das grades e condenado à prisão perpétua por causa da roubalheira na prefeitura paulista. A ética e a moral foram lançadas no lixo e o “negócio” como “nunca antes na história desse país” havia ocorrido não custou um milhão, dez milhões, cem milhões de reais. Seu custo foi um valor que não foi dinheiro, mas apenas 1 (um) minuto e 35 segundos de acréscimo ao tempo de TV da campanha de seu partido à prefeitura paulista. E o negociante ”como nunca houve na história desse país” desceu do alto de sua embófia e foi até à mansão do seu antes adverso e agora parceiro eterno até cessada a conveniência, onde após a negociação trocaram gestos de cortesia, tapinhas nas costas, apertos de mão, repetidos sorridos, de costas à ética, adotando o argumento tão tripudiado e agora oportuno: “às favas os escrúpulos de consciência”.


quarta-feira, junho 20, 2012

RIO+20 ou apenas RIO20?


Pouco se sabe em nosso país sobre a RIO92 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento), realizada no Rio de Janeiro, no período de 3 a 14 de junho de 1992, nos mesmos moldes da atual RIO+20 que ocorrerá na mesma cidade brasileira no período de 20 a 22 do corrente mês de junho. Eu que trabalhei quase cinco anos, desde 2001, em uma delegacia criada para reprimir os crimes contra o meio ambiente somente vim ter maior conhecimento de tão importante evento intergovernamental, apenas em 2004, quando fiz especialização em Direito Ambiental e Políticas Públicas, na UFPA. Aquela conferência foi abordada em várias disciplinas e nos livros que foram lidos durante o curso, entre os quais, os usados para consulta na elaboração da respectiva monografia. Antes disso devo ter ouvido esparsas referências na mídia à época de sua realização. Mas, não deve ter sido muito, pois, passados 20 anos a divulgação do evento atual deixa muito a desejar, muito aquém do que deveria ser. E quem mais se omite na necessária e devida divulgação é o poder público, através de seus principais representantes. E não é por falta de dinheiro para quem arrecada mensalmente bilhões de reais. É insignificante a participação do governo brasileiro no incentivo à defesa do meio ambiente, descumprindo aquilo que tais eventos pregam e é registrado em suas cartas assinadas por todos os representantes de mais de uma centena de nações participantes. Para se ter ideia desse desinteresse, um dos principais instrumentos na preservação do Planeta Terra, a educação ambiental, não é  colocado em prática. Aquilo que está no texto da lei acaba ficando apenas no papel. Durante a pesquisa de campo que fiz em 2004, para subsidiar a monografia intitulada “EDUCAÇÃO AMBIENTAL: da construção teórica à efetividade”, constatei que pouquíssimas pessoas tinham ouvido falar da Agenda 21, apresentada na RIO92, que é uma coleção de ideias, conceitos e princípios norteadores que visam demonstrar o que cada segmento social pode fazer em prol de um desenvolvimento econômico e social que seja compatível com a proteção das bases naturais da vida no âmbito local, bem como nos âmbitos nacional e internacional (na concepção de Imme Sholz), de desenvolvimento sustentável, de unidades de conservação e outros itens ligados à preservação do meio ambiente, assim como sobre a Política Nacional de Educação Ambiental, instituída através da Lei nº 9.795, de 27.04.99, que teve seu descumprimento maior pela própria autoridade que a sancionou, o então presidente da República que assinou o instrumento de sua regulamentação – o Decreto nº 4.281, apenas em 25.06.2002, ou seja, 3 (TRÊS) anos após sua vigência, muito embora a lei que o próprio sancionou impusesse um prazo de 90 (NOVENTA) dias. Portanto, o que era para ser regulamentado até 27 de julho de 1999 somente veio a acontecer em 25 de junho de 2002. O que leva um chefe de Estado, no caso um presidente da República a procrastinar, a delongar tanto na regulamentação de uma lei, quando tem a seu dispor um órgão de assessoramento jurídico como é a Advocacia-Geral da União, integrado por centenas de profissionais da área do Direito de afinidade com a técnica legislativa para a elaboração do tal decreto regulamentador? Esse tipo de omissão, de delonga, configura verdadeira agressão, acinte ao povo brasileiro, principalmente a seus eleitores, somente vindo cumprir a lei quando faltava pouco mais de seis meses para o término de seu segundo mandato.  Lamentavelmente vejo o sinal de mais (+) inadequado à denominação da atual conferência intergovernamental. É evidente que não houve estagnação no processo de defesa e preservação ao meio ambiente a partir da RIO92, mas sua evolução foi muito aquém do esperado. É preciso por em prática os princípios norteadores da conferência anterior associados aos que resultarem da atual Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável.

terça-feira, janeiro 31, 2012


E aquela música ainda toca fundo




Foi no início de uma noite de dezembro do ano de 1969. Eu e o colega Nicolau chegávamos à casa de uma colega sua. Da rua se ouvia, vindo da sala, os acordes de uma nova canção. Era uma música que ainda não ouvíramos. Ficamos os dois parados à entrada absorvendo a canção, sem nada perguntar. E a colega dele que nos recebeu ao perceber nosso estado de enlevo foi até a eletrola (como se chamava o aparelho de som daqueles tempos) que rodava um long-playng (o disco de vinil que depois seria chamado bolachão) recém-lançado e reiniciou a execução daquela maravilhosa música. O estilo, o instrumental e a voz do vocalista nos eram familiares, mas sem perguntarmos de quem se tratava continuamos ali parados em frente da casa, sorvendo aquela belíssima faixa musical (como a denominavam os disc jockeys de então). Sem que perguntássemos, a garota, uma bela adolescente próxima a nossa faixa etária, falou de quem se tratava e qual o título da canção. E dirigindo ao colega, disse que quando ele voltasse a ouvir aquela música se lembrasse dela. Confesso que senti vontade de estar no lugar dele, de ser presenteado com aquele tipo de homenagem, de uma bela garota dizer que quando eu ouvisse aquela joia se lembrasse dela que nem era namorada do homenageado. Era uma cortesia sem tamanho. A música era dos rapazes de Liverpool, a banda mais famosa de então e que marcou época para nunca mais ser esquecida e que ainda não sabíamos que estava prestes a se desfazer. O álbum, que seria o penúltimo a ser gravado, trazia na capa os Beatles, já Cavaleiros da Rainha, atravessando a Abbey Road londrina. Não lembro de mais detalhes daquela noite. É possível que tenhamos ouvido as outras faixas do álbum, também maravilhosas, como Here comes the sun e Something, conversado amenidades e ido embora. E não me lembro de ter voltado mais ali e nem visto mais aquela garota, nem lembro seu nome, se casou, se ainda mora por esta abençoada terra do Grão-Pará. Talvez meu colega tenha esquecido-a e nem tenha dado muita importância àquela eventual manifestação gentil. E que voltando a ouvir aquela música tenha esquecido a homenagem. Eu, não! Nunca esqueci, mesmo não sendo o alvo daquela manifestação carinhosa. Também, nunca perguntei a ele e nem posso mais, para saber se lembrava, pois ele já se foi. Mas, quando a música toca, passados mais de quarenta anos, ela me faz lembrar uma jovem, cujas feições se perderam no caminho do tempo, dedicando Oh! Darling ao meu saudoso colega de juventude, tocando no fundo da saudade, recordando a primavera da vida!


À memória de NICOLAU RAIMUNDO BIÁ VIANA

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