domingo, agosto 26, 2012



 
 
As escolhas do cara
 

As escolhas de quem já foi até referido pelo presidente americano como “o cara” tem motivado análises profundas, reflexões e manifestações para todos os gostos das quais me arvoro a associar-me. E elas continuarão indefinidamente. A história assinala escolhas esquisitas como a de um imperador romano nomeando seu cavalo senador. Nossos contemporâneos também surpreendem nas escolhas. Na década de oitenta, segundo contou um colega, o titular da secretaria estadual onde ele trabalhava, trocou a chefa de gabinete por um modesto servidor sem importar-se com as críticas e consequências. O então secretário era um grande empresário ainda neófito na política, mas contribuíra sobremaneira para a eleição do governador que o escolhera para dirigir um órgão estratégico. Logo nas primeiras semanas de gestão ele implicou com a senhora que chefiava o gabinete, uma exemplar e experiente servidora que vinha atuando naquele setor há vários anos. Em sua implicância acabou por demiti-la do cargo em comissão. Como aquele secretário ainda não possuía a legião de áulicos que quase todo dirigente de alto escalão possui, ele substituiu a servidora que atuara em diferentes gestões pelo primeiro nome que lhe deu na telha, escolhendo um obscuro servidor já cinquentão, sem formação superior e nem aptidão técnica. Calunga era o apelido do tal servidor que, de motorista do secretário em seus deslocamentos oficiais e extraoficiais surgiu como o novo chefe de gabinete. De como ele se portaria, fazendo engenheiros, técnicos e outros servidores de nível superior a chama-lo de chefe, pois no organograma daquela secretaria o ocupante daquele cargo era a segunda pessoa do secretário, isso é outra história. Mas esse fato serve para ilustrar o que acontece às vezes com alguns dirigentes do poder público, principalmente, presidentes, governadores e demais agentes políticos e seus auxiliares diretos, ministros e secretários, tomando atitudes extravagantes beirando ao desvario, fazendo escolhas estranhas, absurdas, inexplicáveis, sem se importar com os irreparáveis prejuízos que possam resultar da excêntrica escolha. No fim quem paga a conta é o povo. Vejo às vezes alguns órgãos públicos como uma empresa em constante estado falimentar e que só não acaba de vez porque o erário continuará abastecê-los de recursos, funcionem bem ou mal. Essas atitudes resultam de motivos diversos, seja como a autoafirmação de seu autor, excesso de vaidade ou até mesmo incapacidade ou irresponsabilidade com a coisa pública. Se a escolha vai dar certo ou não, se não é do consenso dos circunstantes, se o escolhido não possui aptidão, experiência e outros atributos para desempenhar com êxito determinado cargo isso não conta, o que por certo não aconteceria ou não acontece com uma empresa da iniciativa privada que tem seu desempenho fundado no mérito.  Assim aconteceu e acontece com Lula. Tantos foram os companheiros de partido que já ocuparam e ocupam setores estratégicos da administração pública, incluindo autarquias e empresas públicas. Assim foi nos ministérios, na Petrobras, na Caixa Econômica, no Banco do Brasil, como agora veio à tona e está em exposição com o julgamento do mensalão. A atual presidente quando escolhida candidata surpreendeu analistas políticos, assim como todos que acompanham os bastidores políticos, surpreendeu aliados e integrantes do partido e desagradou aqueles que esperavam serem os escolhidos. Como escolher para concorrer ao mais alto cargo republicano alguém que nunca concorrera sequer para síndico de edifício? Mas, contra tudo e contra todos, “o cara” escolheu uma pessoa que inicialmente começou nas pesquisas com apenas um dígito, considerada um poste ante sua inexpressividade, e que próximo da eleição do primeiro turno já atingira o índice necessário para a disputa do segundo, saindo vencedora. Sua consagração nas urnas certamente quintuplicou a autoconfiança do doutor honoris causa mais badalado do momento. Ele certamente considera-se espécie de Midas (o mitológico rei que em tudo que tocava virava ouro), achando que pode colocar quem quiser para assumir qualquer que seja o setor ou cargo. Agora mesmo ele voltou a surpreender com a indicação e imposição do candidato à prefeitura de São Paulo, jogando-se de corpo e alma em sua campanha, mesmo saindo de um recente tratamento médico. Para tanto fez pacto com um histórico adversário a quem acusou de corrupto e de adjetivos relacionados a sua censurável conduta na vida pública, tudo para obter seu apoio ao mais novo ungido que por enquanto está muito aquém dos que lideram as pesquisas de intenções de voto. Mas, se as coisas ocorrerem como ele aspira, seu toque magistral irá mais longe ainda para escolher no futuro quem quer que seja para qualquer que seja o cargo republicano. Não interessa o desempenho do escolhido, apenas que será quem ele quiser. E seja qual for o resultado dessa empreitada virão lições inolvidáveis.

 

domingo, agosto 12, 2012




A lição russa

Existe um mote de que “o jogo só acaba quando termina”. Apesar de expressão pleonástica guarda intensa profundidade. A lição russa de hoje tem tudo a ver com isso. Falo dos integrantes da equipe masculina de voleibol da Rússia que ganhou o jogo da tarde londrina de hoje disputado com nossos patrícios, obtendo a medalha olímpica de ouro. Para quem não conhece as regras dessa modalidade de esporte, o voleibol atualmente é disputado em melhor de cinco (5) sets de 25 pontos. A equipe brasileira havia ganhado os dois primeiros sets de 25X19 e 25X20. E o terceiro set ao ser disputado chegou a estar 22 pontos para os canarinhos do vôlei. Assim, faltavam apenas três (3) pontos! Três míseros pontinhos faltavam para encerrar a partida e a equipe comemorar a conquista, subir ao lugar mais alto do pódio e receber a medalha de ouro. “Tá na mão”, muitos pensaram ou disseram, inclusive eu. Em dois ou três minutos era só comemorar mais uma medalha dourada. Era quase impossível reverter o quadro, pois a equipe brasileira passara essa confiança. Quem naquele momento saiu da frente do televisor ou fechou o aparelho, ou saiu de casa, ou se desligou da partida, não tinha quase nenhuma dúvida da indiscutível vitória. E foi aí que funcionou a filosofia popular de que “o jogo só acaba quando termina”. Os russos que perdiam de 22X19, conseguiram reverter o placar, ganhando o terceiro set de 29X27. E jogo foi para o quarto set que se equipe brasileira vencesse, ganharia o jogo. Mas, perderam de novo, 25X22! E assim, veio o quinto e último set, chamado de tie-break (desempate), no qual o placar vai até 15 pontos. E os russos ganharam de 15X9! Se fosse numa olimpíada quando a Rússia ainda pertencia a extinta URSS, diriam que os rapazes se esforçaram, fizeram das tripas coração, deram o sangue, para não serem deportados à Sibéria ou receber outro castigo terrível quando retornassem para casa. Mas isso já não existe mais. Eles lutaram porque queriam vencer. Desculpas, teorias, argumentos, serão apresentados para explicar a derrota brasileira, inclusive a de que o técnico convocara e manteve como titular um filho seu. Alguns dirão que se a situação fosse inversa, nossos patrícios teriam sido acometidos de desânimo, conformismo, admitido antecipadamente a derrota, aceitado a situação e levado o jogo até completar o escore exigido. Ninguém nunca saberá. Mas, o comportamento dos russos, que fizeram a diferença, fica como lição para ser absorvida, mostrando que seja qual for a situação o atleta não pode nunca perder a confiança. Em situação nenhuma ele deve perder a esperança, seja qual for o placar, ele não pode abrir mão da garra de lutar para ganhar, de reverter a situação, de dar tudo de si, de buscar lá no fundo da alma o estímulo e a energia para superar qualquer que seja a dificuldade que se apresentar, mesmo parecendo impossível aos olhos dos demais mortais. O jogo acaba, mesmo sem ter findado, quando terminam esses ingredientes que mantém viva a chama da luta pela vitória.

quarta-feira, agosto 01, 2012



Mensalão: um cometa na nebulosa processual


Amanhã começa, segundo alguns, o maior julgamento da história do Supremo Tribunal Federal (STF). A expectativa é enorme, mas as distorções, incongruências, controvérsias, que envolvem acusados, defensores e julgadores, serão os maiores obstáculos para seu deslinde. Um dos ministros julgadores é amigo e já foi advogado de um dos acusados. O ministro-presidente já foi filiado ao partido (PT) da maioria dos envolvidos, inclusive candidato a deputado federal em 1990. Vários advogados, profissionais de larga experiência, integrantes de bancas de advocacia famosas, entre os quais, um ex-ministro da Justiça, já anunciam que irão pedir a suspensão do julgamento, arguindo em defesa de seus clientes que a Corte Constitucional é adequada apenas para aqueles que possuem foro privilegiado, no caso, os deputados federais em pleno mandato. Isso me lembra um fato marcado por incomensurável expectativa, já fazendo décadas. Em março de 1973 e eu ainda com 21 anos, jornais e revistas anunciaram aquilo que tinha tudo para ser o acontecimento astronômico do ano, da década, do século, quem sabe do milênio. O astrônomo tcheco Lubos Kohouteck descobrira um cometa, registrado como C/1973 E1, que passou a ser chamado pelo nome de seu descobridor, assim como o cometa Halley descoberto por Edmond Halley em 1696, aquele que aparece de 76 anos em 76 anos.  O cometa de 1973 também era periódico, cujo periélio (maior proximidade ao sol, quando a exposição do cometa é mais intensa) se daria na véspera do Natal daquele ano. Alguns artigos sustentavam que o tal cometa tivera uma de suas passagens por nosso planeta a quando do nascimento de Jesus e que a Estrela de Davi, a que levou os Três Reis Magos a segui-la para chegarem até a manjedoura onde estava o menino-Deus, na realidade seria o cometa agora batizado de Kohoutek. Selos comemorativos e variados brindes (chaveiros, canecas, bandejas etc) foram confeccionados para marcar a passagem de tão esperado corpo celeste a se transformar num espetáculo inesquecível, segundo os astrônomos. Muita gente se preparou para vê-lo do mar, outros viajaram para lugares onde a visibilidade seria melhor. Mas todo esse aparato e preparo acabou num fiasco, pois tudo aquilo que fora anunciado pelo astrônomo tcheco não aconteceu. Os seus vários quilômetros da cauda, sua luminosidade, seu brilho, não alcançaram o que fora anunciado, devido, segundo explicações científicas, ao seu núcleo não ser muito rico em substâncias voláteis.  Mas, o que teria aquele anunciado cometa com o julgamento do mensalão a ocorrer a partir de amanhã pela maior corte de justiça do nosso país? Ah, sim, preciso dizer que uma das definições de cometa é que se trata de “sujeira” ou “pedras de gelo sujo” formado principalmente por material volátil que passa diretamente do estado sólido para o estado gasoso e que a tal “sujeira” é constituída principalmente por poeira e pedras de tamanhos mais variados. E então, no inicio deste ano de 2012 foi anunciado o julgamento de quase 40 acusados, entre as quais, deputados federais, ex-deputados federais, ex-ministros, assessores, bancários, um grande publicitário, envolvidos em um negócio sujo que foi rotulado de “mensalão” que era o pagamento mensal a políticos (deputados) da base de sustentação do governo federal para manipulação de votos na aprovação de projetos e manutenção da direção do País nas mãos de quem o detinha e detém. O julgamento iniciará amanhã, dia 02 de agosto e, segundo afirmou o presidente do STF, terminará ainda mesmo em agosto. A expectativa é grande quanto ao destino dos “mensaleiros” e articuladores da obtenção e distribuição do dinheiro, quase sempre surrupiado dos cofres públicos. Eu particularmente não acredito nessa previsão, pois existem dezenas de motivos a obstaculizar seu curso. São quase 40 acusados de crimes de formação de bando ou quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, peculato, gestão fraudulenta e evasão de divisas, um dos quais, ex-ministro da Casa Civil e ex-deputado federal, detentor de vários mandatos e que figura na história de resistência através da guerrilha ao regime de exceção, amigo da presidenta da República e seu ex-companheiro da luta armada e amigo do último ex-presidente da República, de quem foi seu ministro ocupando a Casa Civil. São dezenas de volumes de autos processuais, apresentando extensas e prolixas defesas (alegações finais), como é o caso das alegações de defesa daquele que é rotulado de “chefe da quadrilha”, composta de 162 folhas, cujo advogado alega estar a “frente de gigantesco universo processual”, a de outro, com 115 folhas; a do tesoureiro, com 135. E por aí vai. O julgamento do “mensalão” tende a se tornar um fiasco como foi a passagem do Kohoutek em 1973 aqui na Terra. De sua grandeza processual, os defensores dos réus e outros atores que não aparecem, de tudo farão para que a “sujeira” imputada aos acusados não venha à tona, impedindo que, como na luminosidade do cometa, o julgamento tenha uma passagem opaca, sem brilho, frustrante para todos nós.