sábado, dezembro 29, 2012




E lá se foi Bradbury
 
 

Conheci o magistral Ray Bradbury lá pelo final dos anos 70 ou início da década de 80, ao ler “O Homem Ilustrado”, lançado em formato de bolso nas bancas de revistas e que teve sua versão cinematográfica.  Comecei a ler e fiquei deslumbrado a partir do prólogo, parando nos intervalos da faina e outras atividades necessárias até concluir a leitura em pouco mais de três dias, após reler algumas das histórias, envolvido por um estilo espetacular. As centenas de contos que eu lera antes não se comparavam aqueles, cada qual mais diferente. Um dos numerosos exemplos da criatividade do autor na arte de escrever é “Fahrenheit 451”, uma história, que também teve sua versão cinematográfica, sobre um país onde os livros foram proibidos e os que eram encontrados eram queimados. As criações literárias do velho Brad quase sempre se passam no futuro e em outros planetas. E há também algumas com seus personagens voltando ou fugindo ao passado. São como as parábolas, descrevendo traços da alma e do comportamento humano. E “O Homem Ilustrado” traz em seu prólogo um homem que teve seu corpo totalmente tatuado por uma estranha mulher que sumiu após o serviço deixando gravado um turbilhão de astronaves, fontes, gentes, rios, montanhas, estrelas, planetas, dispersos numa galáxia que lhe descia pelo peito, predizendo o futuro e que se moviam à noite, ganhando vida própria. E o narrador, um viajante que se encontra com o homem ilustrado, mais tarde, quando descansavam à noite em uma área de camping, experimenta a sensação de ver tal magia. E cada conto do livro corresponde a uma figura do tatuado, cada qual sem conexão com os demais, num final surpreendente. Até então eu já lera vários contistas e romancistas, entre os quais, os patrícios Jorge Amado, Machado de Assis, José de Alencar, Érico Veríssimo, Humberto de Campos, os estrangeiros Herman Hesse, Sartre, Hemingway, Victor Hugo, Exupery, Alexandre Dumas (pai e filho), Voltaire, Irmãos Grimm, Hans Andersen, as fábulas de Esopo, Mark Twain, Sidney Sheldon, Frederick Forsyth, mas nada parecido com o que escreveu o americano Bradbury. Depois li outras obras suas: “O país de outubro”, “Os frutos dourados do sol”, “As máquinas do prazer” (nenhuma conotação lasciva), “Crônicas marcianas”. Não possuo mais o primeiro exemplar adquirido que tomou outro rumo (de outras mãos) levando-me a adquirir outro e mais outros, a medida que saíram de meu domínio. O que tenho atualmente é uma edição lisboeta  e deve ser o quarto ou quinto exemplar adquirido, além de alguns dos títulos citados. Minhas irmãs também leram, releram e se deliciaram com os contos do mestre Bradbury que se foi para sempre no dia 5 deste mês de junho*, quando estava em Los Angeles.

(*)Texto escrito em 13/6/2012.

 

segunda-feira, dezembro 17, 2012

 

 
Um maravilhoso e inesquecível conto
 
Uma das histórias que ouvi e ainda ouço de mamãe, atualmente com 87 anos, é o conto "A corda de areia", no rol de outras centenas de histórias, entre romances, contos, filmes e casos verídicos, alguns destes ouvidos de pais e avós. Algumas são inesquecíveis e marcantes pela importância como lições de vida, trato ao próximo e outros aspectos humanos. E "A corda de areia" sempre foi uma de minhas preferidas, mas mamãe não lembrava o autor. Com o surgimento da internet cheguei a pesquisar sua autoria, mas não tive êxito. Dia destes conversando em casa com minha irmã Rúbia veio à tona a tal história. Ela com mais habilidade na busca tecnológica encontrou o nome do autor: Malba Tahan. Este é o principal heterônimo do brasileiro Júlio César de Mello e Souza (1895-1974), professor de Matemática, autor de vários livros com dezenas contos protagonizados por gente do mundo árabe. A referida história se passa em um país onde os velhos foram exterminados pelos jovens que passaram a governá-lo. Tudo ia muito bem até que um dia chegou ali uma comitiva de um país vizinho reivindicando uma extensa e cobiçada faixa territorial de solo fértil margeando um rio. Os visitantes trouxeram um tratado assinado fazia décadas entre os governantes dos dois países, deixando os então dirigentes jovens atônitos sem saber o que fazer e o que dizer. Como constatar a veracidade daquele documento? Como reverter a situação? A solução seria apresentada no dia seguinte pelo jovem Ministro do Exterior após este consultar seu pai, o único velho que sobrevivera à matança e passara aqueles últimos anos escondido pelo filho em um subterrâneo. Se quiser saber o que aconteceu leia o texto original abaixo, cujo autor inspirou um outro brasileiro décadas depois que ficou rico escrevendo sob a influência do mestre.
  


A Corda de Areia
Malba Tahan
                                                                                                                                                                                                       
 
- A velhice entrava o progresso! - proclamavam os mais exaltados. - Esse belo país entregue aos moços será mil vezes mais forte, mil vezes mais feliz e glorioso!
O espírito surdo de revolta foi-se apoderando dos jovens. Que lástima (diziam) esse governo decrépito de anciãos! Que lástima!
Não se sabe como, mas a inominável desgraça ocorreu. Precipitaram-se os acontecimentos. Por todos os recantos surgiam fanáticos e conspiradores.
- Eliminemos os velhos! Acabemos com essa senilidade inútil!
É triste relatar. Que nódoa para o mundo, que ignomínia para a História! A mocidade de Kid-Elin, presa de terrível e hedionda alucinação, exterminou todos os velhos.
Todos, não. Houve um que se salvou da hecatombe. Vivia em Kid-Elin um rapaz chamado Zarmã que tinha por seu pai (homem bastante idoso) uma grande, nobre e sincera afeição. E no dia da execrável revolta escondeu o velho no fundo de um subterrâneo, livrando-o assim de cair em poder dos revoltosos homicidas. Para Zarmã a vida de seu pai era um segredo que ele não ousava revelar a ninguém.
Voltemos, porém, à nossa narrativa. Exterminados os velhos, o país de Kid-Elin passou a ser governado unicamente pelos moços, alegres e inexperientes. Para o cargo de Presidente da República elegeram um jovem de vinte e dois anos; o ministro mais amadurecido pela idade não completara dezoito anos; vários generais eram, apenas, adolescentes; o Supremo Tribunal foi entregue a um mancebo de vinte anos incompletos: da direção do Banco Nacional encarregou-se um novato, que precisamente no dia da posse festejava sua décima quinta primavera!
Os juvenis governantes de Kid-Elin proclamaram com alvoroço a vitória:
- Eis o único país do mundo que não tem velhos! Aqui é a mocidade que governa, resolve e desresolve!
Certas notícias correm pela terra com a rapidez do relâmpago pelo ar. No fim de poucas semanas recebia o mundo a informação do movimento de Kid-Elin.
- Kid-Elin é o país dos jovens! Vamos todos para Kid-Elin.
E as estradas encheram-se de turistas e curiosos que iam em busca da nova República.
Para empanar a esfuziante alegria dos jovens senhores de Kid-Elin verificou-se um fato profundamente inquietante e desagradável. De Beluã (reino vizinho) foi enviada aparatosa embaixada constituída de técnicos, jurisconsultos e economistas. Essa embaixada, ao chegar, procurou o jovem Presidente da República e fê-lo ciente de
sua espinhosa e delicada missão. Tratava-se apenas do seguinte: O reino de Beluã, por seus legítimos representantes, exigia dos moços a devolução imediata de todas as terras que se estendiam para além do rio Helvo.
E o chefe da embaixada exprimiu-se em termos bem claros, sem poesia e sem retórica:
- O governo beluanita, firmado em seus direitos, exige a entrega imediata do território em litígio. - Temos um tratado, nesse sentido, com Kid-Elin. Aqui estão os documentos.
O Presidente, os Ministros e Magistrados de Kid-Elin examinaram os títulos e as escrituras. Tudo parecia claro, líquido, insofismável. A República de Kid-Elin era obrigada a entregar ao seu poderoso vizinho (em virtude de um acordo feito vinte anos antes), léguas e léguas de uma terra dadivosa e rica!
Que fazer? Seria a ruína para o país. Seria a desgraça para os jovens!
Foi então que o jovem Zarmã (que era o Ministro do Exterior) teve uma inspiração. Lembrou-se de seu velho pai.
- Vou consultá-lo sobre esse caso - pensou. - Meu Pai, com a experiência que tem da vida, saberá descobrir uma solução para essa questão das terras do Rio Helvo.
- Mais tarde, meu filho - afiançou o velho encolhendo os ombros - mais tarde entrarás também na posse desse grave e precioso segredo. Por ora é cedo. Segue o meu conselho, e tudo estará resolvido para o bem de nossos patrícios!
Cega era a confiança que o diligente Zarmã depositava em seu Pai. No dia seguinte recebeu a embaixada reclamante, e na presença do Presidente, Ministros, Magistrados, Generais e altos-funcionários (eram todos muito jovens) repetiu fielmente as palavras que ouvira do ancião:
- A República de Kid-Elin está resolvida a devolver o território por vós reivindicado. Exige, porém, que o Reino de Beluã cumpra na íntegra os seus compromissos e devolva intacta a corda de areia!
Ao ouvirem tal sentença mostraram-se alarmadíssimos os embaixadores beluanitas. Aquela exigência final, expressa pela exigência da devolução da "corda de areia" caiu como uma bomba no meio deles. O chefe da embaixada ficou pálido e trêmulo. E depois de trocar algumas palavras, em voz baixa, com seus conselheiros e ajudantes, assim falou de rompante, com nervosa decisão:
- Desistimos de nosso pedido. Podeis conservar, para sempre, o território do Helvo, com todos os seus campos e searas.
Neste ponto fez o estrangeiro uma pausa, e logo ajuntou com voz estorcegada, cortante de ironia e rancor, sacudindo o busto com dureza:
- Cabe-me, entretanto, desmentir as notícias propaladas pelos vossos agentes e emissários. Posso jurar que a República dos jovens não existe. Tudo mentira! Há velhos, ainda, neste país!
Mas, afinal, que significa isso: - Corda de areia?
Eis o segredo que o Tempo (e só o Tempo) se encarregará de revelar aos jovens. A velhice é um tesouro. Tesouro de sabedoria, clarividência e discrição. Sem o amparo seguro da velhice, a parcela jovem da humanidade estaria perdida e extraviada, pelos descaminhos da vida. É a velhice que sabe onde encontrar essa maravilhosa corda de areia que liga o Passado ao Presente e enlaça o Presente com o Futuro.
E o bondoso e paciente rabi Haggai repetia quarenta vezes falando aos discípulos atentos:
- Lembrai-vos, meus jovens amigos, lembrai-vos sempre da  "corda de areia".                                           
 
  

 
 


domingo, dezembro 16, 2012


As providenciais formigas


Parada de ônibus  situada na avenida Almirante Barroso próximo a avenida
Ceará. Em primeiro plano o espaço que tomou parte das faixas de trânsito para 
as obras do futuro BRT. Ao fundo o muro do Terminal Rodoviário
 
Podem umas poucas formigas salvar uma vida humana? Parece absurdo, mas é plenamente possível. Há muito não reclamo dos reveses da vida. Não porque seja conformista inato ou porque me obriguei ou sou obrigado a isto por imposição de alguém. Não. Além da confiança em DEUS, na sua infinita misericórdia, bondade, poder e tudo mais, minha conformação com os desapontamentos, com as desilusões, com os prejuízos de ordem material ou moral, com as decepções, se fortaleceram em fatos passados durante o curso da minha vida. Venho vivenciando e aprendendo lições. Algumas inesquecíveis ocorridas da infância à juventude e desta aos dias atuais. Uma delas eu lembro até a data. Foi há mais de 40 anos, na noite de 31 de dezembro de 1971. Na expectativa daquele réveillon, no início da noite aprontei-me para sair. Morava com meus pais num já antigo edifício situado no bairro de São Brás, no início da atual avenida Governador José Malcher e, por volta das 19 horas, após atravessar a movimentadíssima avenida Almirante Barroso cheguei ao ponto de ônibus localizado próximo a confluência com a avenida Ceará, onde havia um grande relógio no alto de uma coluna. Naquele local era e ainda é grande o fluxo de passageiros de ônibus das mais variadas linhas que fazem parada numa extensão de mais de 50 metros. Eu chegara ali com destino ao bairro da Marambaia onde incialmente moramos quando viemos do interior e se concentrava a maioria de meus colegas e amigos. Havia poucos minutos que eu estava naquela parada de ônibus, em pé no passeio público, quando senti literalmente um formigamento em um dos tornozelos, constatando em seguida que eu ficara próximo a uma passagem de formigas, tendo algumas delas subido pelos meus sapatos. Meu impulso foi sair de onde estava batendo forte com os pés no solo para livrar-me dos insetos que estivessem nas pernas da calça e nos sapatos, enquanto eu batia com as mãos espalmadas sobre os tornozelos. E, concomitantemente, desloquei-me lateralmente para a esquerda. E nesse deslocamento afastei-me aproximadamente vinte metros de onde inicialmente me postara. E não havia ainda passado nem meio minuto quando vi uma Kombi que trafegava no sentido do bairro do Marco chocar-se lateralmente com outro veículo mais pesado trafegando no mesmo sentido. O impacto fez a Kombi descontrolar, capotando espetacular e lateralmente, passando exatamente no ponto onde eu estivera segundos antes, indo parar junto ao muro de um terreno. Tomei um susto e respirei aliviado sussurrando um rápido agradecimento ao Altíssimo pelo livramento que acabara de ser presenteado naquele fim de ano, pois, era evidente que se eu ainda estivesse no local onde fora atacado pelas formigas, fatalmente eu teria sucumbido, provavelmente esmagado, ao impacto violento de veículo automotor pesando uma tonelada. A seguir, ainda sob o impacto emocional, dirigi-me com outras pessoas que ali estavam, para ver o que acontecera com os ocupantes do veículo capotado, constatando que os dois, incluindo o motorista, saíram ilesos. Mais tarde eu faria as primeiras narrativas do fato, concluindo que se não fossem aquelas providenciais formigas eu não teria saído do lugar onde estivera inicialmente e, consequentemente, seria atingido por uma tonelada de ferro em velocidade. E não estaria contando a história como faço neste texto. Com o passar dos anos até os dias atuais quando eu perco algo, se algo não sai como eu gostaria que fosse ou quando acontece uma coisa desagradável logo eu imagino que aquilo aconteceu ou está acontecendo para evitar um mal maior. E assim tem sido até agora, graças a Ele.
 

Refletindo com Rubem Alves O ntem recebi com alegria a informação que uma pessoa amiga disse a outra estar sentindo falta de meus esc...