quinta-feira, setembro 11, 2014

Refletindo com Rubem Alves


Ontem recebi com alegria a informação que uma pessoa amiga disse a outra estar sentindo falta de meus escritos. Puxa!
As estiagens textuais neste espaço se dão, não por outro motivo, senão pela falta de tempo, envolvido que estou no cotidiano, apesar de aposentado.
Mas voltarei, com a Graça de Deus, a escrever, uma das coisas que mais me apraz, externando sentimentos, observações e reflexões. E também, dividindo com meus próximos informações achadas interessantes.
Como tenho usado este espaço não somente para expor aquilo que produzo, mas também aquilo que aprecio, admiro e elejo como algo interessante a ser compartilhado com meus leitores, aproveito o ensejo para vir à baila uma simples mas inexpugnável crônica do agora saudoso Rubem Alves.
Esse maravilhoso escrito circulou nas redes sociais logo após a partida do cronista, autor de tantas outras preciosidades.
E talvez nem tenha alcançado o que ela precisa alcançar, que é a reflexão, não somente daqueles que chegam a uma idade avançada como eu, mas também aos mais jovens, de valorizar seu tempo terreno, pois, como disse Tiago (4:14), um dos apóstolos de Cristo, "A nossa vida é um vapor que aparece por um pouco e depois se desvanece".
Mas, vamos ao primoroso texto.

                                                                                     (texto escrito em 06/09/2014)


O tempo e as jabuticabas

RUBEM ALVES (*)

Contei os anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.
Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos a limpo”.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei agora de Mário de Andrade que afirmou: “as pessoas não debatem conteúdos, apenas rótulos”.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.
O essencial faz a vida valer a pena.


(*) RUBEM ALVES (1933-2014), teólogo, escritor, jornalista.

domingo, julho 13, 2014



O silêncio imposto pela seleção da CBF


Estou retornando para casa com a mulher e os dois filhinhos, vindo de Marudá. Foram três dias curtindo (ou sendo curtidos) ao sol de Crispim e Algodoal, praias paradisíacas de nossa região litorânea. A entrar em Belém encontro as ruas vazias, desde a rodovia principal até as ruas do bairro onde moro. Faz um silêncio há muito não visto ou percebido. Para não ser funesto não direi que faz um silêncio sepulcral, mas um silêncio de decepção, de frustração, de conviver com o inesperado, com o imprevisível. As casas fechadas com seus moradores, algumas com sacadas ocupadas por pessoas taciturnas, sérias, desoladas aguardam o imprevisto jogo entre Alemanha e Argentina. Essa é a expressão. Tudo a partir dos malfadados 7 a 1. Os singelos enfeites aplicados à rua que estou passando, resultantes do sacrifício econômico e braçal dos torcedores mais fanáticos, agora tremulam ao vento parecendo escarnecer. Ontem, na última decepção desta apelidada Copa das Copas, um conhecido narrador esportivo dizia, diante das últimas palmas que eram dadas aos jogadores brasileiros que já perdiam de 2 a 0 para a Holanda que essa seleção era de todos os brasileiros, enfatizando essa afirmação. Será? Não acho e acho que muitos acham também que não. A seleção dita brasileira porque composta por jogadores brasileiros não tão bem selecionados é única e exclusivamente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), ou melhor, de seu presidente e seus sequazes. E é esse presidente de conduta censurável quem escolhe o treinador que, por sua vez escolhe quem ele bem quiser, ou quem a si for sugerido (imposto mesmo) pelo presidente. E como pode ser constatado essas convocações foram feitas dentro da conveniência deles. E deu no que deu, mostrando que a seleção é deles, que são brasileiros, mas não de todos os brasileiros como quis impingir o narrador. Encerro este texto aos 28 minutos do primeiro tempo. Ainda está zero a zero, diferentemente com a seleção da CBF que por esse tempo, a quando da semifinal, já levava de 5.

quinta-feira, junho 12, 2014







Vai começar outra vez


Após meio século o torneio de futebol mais badalado do Mundo vai começar hoje de novo aqui no país dos brazucas. Aliás, esse termo “gentílico” acabou inspirando o batismo da bola do torneio, em que pese, como assinala o crítico literário Sérgio Rodrigues, que o termo nasceu em Portugal com tom depreciativo aos brasileiros. Não percebo desta vez a empolgação de outras, mesmo elas acontecendo fora daqui. Os repórteres setoriais das emissoras de TV cumprem seu papel, buscando estimular o povo, criando bordões, vinhetas e outros recursos animadores. Mas, nem mesmo assim o clima parece com o de outras épocas (82, 94, 98 e as outras três do atual século). Nos carros automotores um entre 50 aparece com uma bandeirinha ou adereço verde-amarelo. Lembro da decepção em 82 e também quando um político esperto, ainda no meio de sua trajetória política, disse, após o fiasco no Sarriá, que as eleições diretas para governador, após duas décadas acontecendo de forma indireta, fariam o povo esquecer o vexame da “seleção das galáxias”, como chegou a ser chamado o escrete canarinho daquela copa. Se ocorrer como das últimas vezes, só mesmo quem vai lamentar de verdade é o torcedor ingênuo como eu já fui. Meu filho de 9 anos contava os dias e agora as horas, como há pouco, lembrando em voz alta que faltavam 4 horas. Os políticos ávidos pela reeleição, de olho nas eleições daqui a menos de quatro meses, para gastar e embolsar o nosso dinheiro, parecem impacientes para que isso acabe (ufa) logo, de qualquer jeito, indiferentes, seja qual for o resultado. Os jogadores “estrangeiros” do time penta, vencendo ou perdendo, retornarão para seus países de “origem” ganhando os mesmos salários fabulosos. E mesmo perdedores continuarão em evidência. Continuarão a fazer os comerciais de eletrodomésticos, bebidas, operadoras de aparelhos celulares e outros produtos. De igual forma o técnico poderá ou não ser despedido, pois parece ser mais que amigo do surripiador de medalhas, atual dono da CBF. E se sair perdedor do título da mesma forma quase nada acontecerá com suas finanças, pois, sairá com os bolsos atopetados de dinheiro. Mas, cá pra nós, tem muita coisa estranha nesse angu. E a conquista do torneio lançará por terra vários protótipos da massa em torno do técnico, principalmente aquele de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Se ganhar, vai ser o primeiro na história do selecionado brasileiro a ganhar duas vezes como titular (Feola em 58, Aymoré em 62, Zagalo em 70, Parreira em 94 e o próprio em 2002). Vai ser o técnico que não deu certo na Europa, mas deu na copa de seu país. Vai ser aquele que assumiu o elenco de mais títulos, vindo de um clube que acabara de ser rebaixado para a série B, mesmo que antes tenha ganhado a imprevisível Copa do Brasil. Vai quebrar a escrita de que quem ganha a Copa das Confederações não ganha a Copa do Mundo. Bem, tem muita coisa ainda para dizer. Por hora irei acompanhar o desenrolar dos acontecimentos. Já está prestes a ser executado o hino nacional da partida de abertura.